Almoçar na escola?
Por Raquel Ferreira, Dietista.
Para muitos pais, a alimentação fornecida pela escola é um serviço imprescindível. Raros são os pais que têm disponibilidade para levar os filhos a almoçar a casa, e as marmitas, para além do trabalho acrescido, não são de todo a melhor solução.

Assim sendo, o refeitório escolar constitui uma mais valia para todos. Contudo, muitas dúvidas persistem: será que alimentação fornecida é equilibrada? Será que os alimentos são de qualidade? Certamente já foi confrontado com as seguintes apreciações, quando questiona o seu filho acerca do almoço na escola: “a comida não presta”; “não gosto da sopa”, “obrigaram-me a comer o peixe”. A maioria dos pais aceita estas reclamações como um “mal menor”, ainda que silenciosamente compreendam os filhos, especialmente quando lhes vem à memória o cheiro das cantinas do quartel ou das escolas por onde passaram. Outros optam por reclamar sem antes se certificarem dos procedimentos, das normas e dos objectivos desses serviços.

Os tempos são outros. Actualmente, o serviço de alimentação escolar é, na maioria das instituições, supervisionado por dietistas ou nutricionistas que, para além da elaboração das ementas visando naturalmente um equilíbrio nutricional, verificam o cumprimento das normas de higiene e segurança alimentar. A alimentação escolar tem mesmo merecido especial interesse por parte de autarquias e do Ministério da Educação, e, ainda que exista muito caminho a percorrer, a premissa é clara: o meio escolar é particularmente atractivo e promissor para a aprendizagem de comportamentos alimentares (e outros) desejáveis na criança. Para que esta seja uma realidade efectiva, a escola tem que, obrigatoriamente, ser um modelo de boas práticas. Inclui-se aqui a promoção de uma alimentação saudável, que passa naturalmente pela escolha dos alimentos disponibilizados às crianças, quer nas cantinas, quer nos bares ou máquinas de vending. Mas, muitas vezes, existem incongruências entre as práticas na escola e as práticas em casa. Consequentemente, as nossas crianças ficam confusas: “se em minha casa ninguém come sopa, porque é que tenho de comer na escola?”

Porque é que nos jardins-de-infância e nas escolas do 1º ciclo, por exemplo, não se vendem batatas fritas, refrigerantes e afins e, mesmo assim, grande parte das crianças consome estes alimentos porque os trazem de casa? Quantas crianças, já em idade escolar, ainda não iniciaram a adaptação aos alimentos sólidos? Quantas crianças não conhecem alimentos tão banais como os brócolos, a couve-flor ou o pepino? Quantos pais acreditam que o feijão e o grão não são alimentos indicados para estas idades? Quantos pais se esquecem de fornecer sopa, legumes e fruta ao jantar, porque, afinal, os meninos já os comeram ao almoço, na escola?

É importante reflectir e é fundamental que cada um de nós assuma o seu papel na promoção da saúde das nossas crianças. É urgente que as escolas e as famílias trabalhem em conjunto, que unam esforços, que caminhem num mesmo sentido, com uma mensagem clara e muito objectiva: promover a saúde, promover a saúde, promover a saúde!

Raquel Ferreira
Dietista